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sexta-feira, 21 de abril de 2017

Treze Razões e o Baleia Azul

Por Luciano Alvarenga

 

O jogo baleia azul, emergiu dos subterrâneos da vida emocional adolescente para o debate público, quase ao mesmo tempo em que a série Thirteen Reasons Why, (Por Treze Razões), explodiu como sucesso no Netflix.

De repente, os adolescentes são colocados ao centro da cena pública mais de maneira a nos escandalizar, por estarem metidos em jogos que não deveriam estar ou, sobre as razões suicidas de quem na verdade nenhum motivo tem pra suicidar-se.

A doença emocional da qual estão acometidos os adolescentes, não lhes são uma exclusividade, mas certamente o sintoma de uma doença maior e mais extensiva e, que acomete também os adultos, e, a sociedade contemporânea.

De alguma maneira as pessoas sentem que algo está errado, que a vida está sem sentido, e elas não conseguem dar conta de entender ou perceber de alguma forma, o que está fora do lugar. O mal estar a qual estão sujeitas, não conseguem atinar sua origem.

Giorgio Agamben, afirma que a sociedade contemporânea está marcada por um tipo de vida que ele descreve, na esteira de Aristóteles, como Vida Nua. A vida nua é aquela onde o centro da existência está inscrito no corpo; e nas preocupações com esse corpo no seu sentido biológico. A vida se resume, a partir desse ponto, a gestão daquilo que possibilita a vida saudável do corpo, o retardamento da velhice, a ampliação dos prazeres que esse corpo possibilita, o afastamento bioquímico de qualquer moléstia, emocional ou física e, assim por diante.

Em oposição, ainda nos temos de Agamben, a Vida Qualificada, ou seja, aquela onde encontramos significado para o existir, no fazer, no trabalho, na ação criativa, emocional, onde inscrevemos nosso significado a partir daquilo que expressamos concretamente como nosso ser, está completamente exilada da possibilidade de se expressar no mundo contemporâneo.

Dentro dessa perspectiva, as pessoas tem expressado seu mal estar a partir de duas condutas, não conscientes nem possíveis de serem racionalizadas pelo indivíduo; de um lado, a explosão exterior da violência, seja doméstica, no espaço público, nas condutas diárias de convivência, os assédios de todos os tipos; de outro, a explosão interior ao corpo, na condição de distimias, depressões, e doenças psicossomáticas.

Como pano de fundo, onde esse mal estar na vida contemporânea é sentido, uma vida urbana fria, distante, desumanizada, vivida em guetos, ou afaveladas, hiper tecnologizada, (des) orientada por uma avalanche de informações permanentes, que criam a sensação crescente de desconexão, ao mesmo tempo em que a vida nos parece um risco permanente.

Depressões e suicídios deixaram, a muito tempo, de serem problemas individuais, e entraram pra condição de fenômenos sociais que descrevem ou, ao menos indicam, uma distopia na ordem do viver civilizado.

Guerras, genocídios, confrontos armados como no Rio de Janeiro, assaltos e drogatização, saíram da condição de espetáculos assustadores e bárbaros, e estão inscritos na ordem do viver cotidiano e normatizado da vida diária. A violência para com o outro, ou contra si mesmo, está assimilado como parte integrante dessa nova forma de existir.

A violência pública é sentida como um problema de ordem pública e parte da vida urbana, e contra a qual se pode apenas conviver; e, o mal estar individual, é agora tratado como coisa pessoal e, talvez de ordem familiar, nada significando pra qualquer outro.

Na incapacidade de podermos verbalizar, ou expressar como pensamento consciente, nossas dores, explodimos violentamente contra o outro no espaço público, ou, implodimos nós mesmos em nossas doenças psicossomáticas ou depressivas.


É nesse aspecto que a psicanálise, ou clinicas correlatas, num mundo deformado e laboratório de todo tipo de engenharia social, ascende como possibilidade real das pessoas encontrarem a si mesmas, darem vazão a suas dores e sofrimentos, e encontrarem forças, e sentido pro existir. Luciano Alvarenga

domingo, 12 de março de 2017

Esquerda atual: um caso psicanalítico

Por Luciano Alvarenga
Uma coisa que marca muitos dos movimentos anti tudo e qualquer coisa, ou em favor de tudo quanto é coisa, é uma espécie de estridência nervosa, inquietação psicótica, uma espécie de comportamento desesperado, birrento, exigindo agora e imediatamente aquilo que reivindicam.
Não precisa ser um especialista em psicologia, nem mesmo um psicanalista freudiano, pra ver nesse comportamento atual, marcadamente nos jovens desses movimentos, alguma coisa de mal resolvida, de sua tenra infância. E qual foi sua infância? Desmamados logo após nascerem (seja por obrigações de trabalho da mãe, seja por negligência pura e simples, seja pra evitar seios esteticamente reprováveis pros padrões de beleza em vigor), não tiveram oportunidade de criar e sentir os laços maternais absolutamente necessários para o desenvolvimento de uma série fundamental de sentimentos como amor próprio, autoestima, autoconfiança, segurança, etc.
Não fosse apenas isso, a ausência fundamental e consolidada da figura paterna no lar, substituída agora, pela realidade de duas mães, dois pais, ou, autoeducação dentro de um grupo familiar indistinto e, em que os papeis dos pais estão diluídos entre irmãos, tios, avós, sem que se possa reconhecê-los efetivamente.
Cabe dizer ainda, a terceirização da educação formal cada vez mais cedo, hoje a lei federal obriga o encaminhamento pra escola aos quatro anos de idade, mas sabemos que a regra tem sido o envio dos filhos pra creches muito antes disso; o que cria uma nova realidade, onde aquilo que antes, freudianamente se chamava de socialização primária, com os pais e a família próxima, findou-se; tornando a socialização primária um momento que se dá ao mesmo tempo em que se realiza a socialização secundária, isto é, na escola. Ora, socialização primária em casa com a família é algo completamente diferente da outra, secundária, acontecida na escola ou creche, e envolve momentos absolutamente distintos do desenvolvimento infantil, com consequências trágicas para o amadurecimento emocional e neurológico da criança.
Uma observação antropológica, com requintes etnográficos, isto é, pesquisa de campo, com esses jovens, rapidamente dará todas as descrições necessárias e o diagnóstico definitivo de que essa gente toda está ali, nesses movimentos de contestação, por motivos de ordem amorosa, afetiva, familiar, em suma, são pessoas sofrentes em seu psiquismo.
Ao se observar os movimentos de contestação de décadas atrás, em relação aos atuais, o que se nota é o deslocamento de um comportamento nitidamente político, centrado, pautado via de regra por uma literatura sociológica e estratégias de ação, pra algo, agora, puramente histérico e psicótico.
Chama a atenção que berrar, urinar, evacuar, tornaram-se práticas preferenciais desses movimentos como mote de ação; o que nos remete imediatamente, pro significado psicanalítico dessas ações no primeiro ano e meio do bebê. Ora, bebês berram por sua mãe por dois motivos: um, o ceio que alimenta, e, dois, da prazer. Evacuar, sabemos, dialoga com o entendimento do bebe de que cria algo, ao mesmo tempo em que é uma ação também prazerosa, quando da retenção das fezes.
Evidentemente que a questão em tela, nada tem ou está ligada a política, seja feminista, gay, étnica, etc, mas, é mais que qualquer coisa, fenômenos psíquicos individuais alocados coletivamente nesses movimentos, e que são eles, esses movimentos, corolários, consequências inevitáveis em gerações inteiras, que nascidas dentro de um contexto social e tecnológico específico, desenvolveram respectivas realidades psíquicas que não conseguem expressar de outra maneira que não politicamente.
Nesse sentido, esses movimentos não são como querem alguns, a nova esquerda; a esquerda apenas os manipula; são na verdade indivíduos tendo que lidar com os desdobramentos psicológicos de uma realidade, essa sim, determinada pela esquerda, revolução sexual, revolução feminina, revolução gay, que alteraram completamente o berço de sua formação afetiva e amorosa, e que gerou a realidade psíquica desses indivíduos hoje.
Em uma linha, esses movimentos tem mais importância como fenômenos psicanalíticos, do que sociológicos e políticos.