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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Sem chão nem utopia

Luciano Alvarenga
A grande promessa da modernidade foi oferecer liberdade contra tudo e qualquer coisa que pudesse impedir os indivíduos de fruírem a vida sem amarras.
Podemos dizer que, tal liberdade foi conquistada plenamente, e ainda que alguns resquícios de passado, com suas imposições e limites ainda resistam, derretem rapidamente nesse momento; não deixando atrás de si nada que possa servir como estandarte pra novas rebeliões. Não há contra o quê se rebelar.
Todos os sólidos do passado, seja moral ou secular, estão liquefeitos; ao indivíduo resta apenas o destino de se guiar, tendo a si mesmo como referência.
Ao mesmo tempo em que goza de todas as liberdades, vividas ou sonhadas, realizadas ou posta como possibilidade, o que se desenha nas pegadas daquele indivíduo é o medo, o receio, a insegurança, a incerteza em relação a si mesmo e aos seus destinos possíveis.
A própria ideia de destino nada mais é que uma imagem, uma ilusão de quem ainda pensa que se guia de acordo com alguma referência. Religião, moral, tradição, passado, nem mesmo a sociedade ideal, nada há mais que possa ser demandado como fonte, como manancial inspirador pra vida que se queira viver.
Dessa realidade, ou em outras palavras, a realização das promessas da modernidade, a única coisa que se coloca diante da atualidade é a liberdade do indivíduo de fruir sua liberdade conquistada.
A liberdade, entretanto, tem sua contraface, a insegurança. Se o mundo sólido do passado deixava pouca margem de manobra, envolvia o indivíduo nas cordas apertadas da tradição, da comunidade, oferecia a este a segurança num mundo desenhado pra ser previsível.
Na sociedade contemporânea o emprego é volátil, a comunidade é digital, o amor é fugaz, a educação é uma demanda permanente de grupelhos ideológicos, que inocentemente imaginam o mundo a partir de suas abstrações. Não há nada além de si mesmo que possa ser reivindicado como plataforma pra uma vida mais segura.
Dessa constatação, emerge o indivíduo e as dores da liberdade. Sem passado, sem futuro, porque mesmo esse deixou de ser possível ante o derretimento das utopias, sejam políticas ou materiais, o indivíduo sente explodir no corpo os sintomas de sua libertação.
Angústias, depressões, medos, fobias, vícios, tudo isso é ao mesmo tempo a nova realidade que cerca, e a vida que precisa ser enfrentada. Sem sólidos em que se apoiar, o indivíduo da modernidade líquida precisa mais que tudo encarar-se a si mesmo, olhar pra dentro de si, e encontrar nele mesmo a solidez, a única que resta, como ponto de apoio e referência na sua caminhada.
O indivíduo comunitário do passado precisava apenas aceitar os destinos prontos e definidos; o indivíduo contemporâneo precisa criá-los. A modernidade deu aos contemporâneos, aquilo que, talvez, eles nunca tenham querido, responsabilidade para consigo mesmos. Se a mediocridade da vida no passado poderia ser acusada como a responsável pela vida que não se tinha, ao indivíduo, agora, resta encarar, sem meios de não fazê-lo, aquilo que é, solitário e com medo.
A modernidade libertou os indivíduos e os deixou sozinhos. A liberdade de ser o que bem se queira, de não ser nada inclusive, mas certamente, de arcar com as consequências de qualquer direção que se tome.
Conhecer-se a si mesmo, um velho adágio socrático, é mais contemporâneo que nunca. Destituído de qualquer crença ou tradição, o indivíduo tem a si mesmo como obra a ser realizada. O indivíduo é obra de si mesmo, precisa se ver dessa maneira, entregar-se a essa tarefa, e dar a essa tarefa a simbologia necessária para viver.
Não crer, não amar, não acreditar tornou-se a única maneira de amar, crer, e acreditar e, assim, de viver.
Empreender-se a si mesmo, buscar no íntimo as razões que valem a pena, é a única tarefa nobre o suficiente na sociedade atual.
Medos, Angústias e depressões são apenas sintomas dessa nova realidade, e assim devem ser vistas; não como um mundo que destina ao fim, mas um indivíduo que precisa encarar-se a si mesmo em busca dos seus próprios significados.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

A dor é filha do cuidado que não houve

Luciano Alvarenga

Se observarmos uma macaca com seu filhote, uma leoa da mesma maneira, cercada pela presença permanente do macho alfa do grupo, veremos que toda a sua atenção, toda a sua disposição está em relação ao filhote que dela pouco se desgruda. Cuidar desse filhote é condição primeira pra existência do grupo, para o crescimento saudável e aprendizado necessário da cria, pro mundo que viverá e do qual fará parte. A mãe, animal, ensina tudo àquilo que é necessário ao filhote, e tudo pode ser resumir em uma palavra, cuidar.
Não consigo olhara pra sociedade brasileira hoje, sem dar atenção ao significado da palavra cuidar, no que toca as relações afetivas, ou sem afeto algum, que estão prevalecendo nessas últimas décadas.
O estado de imensa fragilidade emocional, insegurança, angustia, falta de referências identitárias mínimas a existência, um desbussolamento cardeal dos valores eternos da humanidade, uma existência marcada pelo vazio, indicados de maneira cada vez mais contundente pelas altas taxas de suicídios entre adolescentes e até crianças, mas também de homens adultos na faixa dos cinquenta anos; a dependência cada vez maior e mais dramática de remédios controladores das emoções; enfim, uma tragédia social, e certamente, civilizacional.
Cuidar é estar perto, presente, alimentar, mas não apenas isso, mas como nos ensina o psicólogo D. Winnicott, ser continente, isto é, ser capaz e pleno pra receber a ansiedade angustiada daquele que vive seus primeiros meses, e tudo depende pra começar a viver.
Cuidar é ensinar a viver, é acolher pra tarefa de tornar a vida indefesa, frágil e insegura, capaz de transitar da ansiedade à autoestima, do terror de morrer ao amor próprio, do nada que sabe ao tudo que pode ser como ser humano.
E por acaso, não são todos os males urbanos atuais, especialmente àqueles que acima me referi medo, insegurança, angústia, vazio... expressões do cuidado que não tiveram a oportunidade de receber?
E não é o abandono da criança, por causas muitas e variadas, todas elas justificadas pelos discursos libertários e libertadores, que impediu o infante de trilhar o caminho, que só a mãe suficientemente boa (Winnicott) pode oferecer. Caminho esse que se inicia, no pensar a si mesmo; que nada mais é que um bebe que consegue na presença cuidadosa e cuidadora da mãe, transformar medo, angústia e ansiedade em pensamento (W. Bion).
Pensar é o ato de tornar conhecido o desconhecido (W. Bion), é o ato em primeira linha de saber-se a si mesmo que o é (Carl Rogers). E do que mais sofremos hoje, senão de não sabermos quem somos, de nada sabermos sobre o que nos define, o que nos explica. Corpos e mentes que se pensam estarem em lugares trocados; o próprio corpo transformado em ateliê de ansiedades muitas e vazios imensos; o desejo estridente em gritar nas ruas e nas redes a verdade que pensa ter descoberto; são todos, e ainda que queiramos dar-lhes explicações sociais e econômicas, epifenómenos do Cuidar que nunca houve.
São gerações inteiras, que sem o saber, devolvem à sociedade caoticamente, confusamente, angustiadamente o resultado trágico daquilo mesmo que lhe foi imputado como avanço, progresso, liberdade e felicidade. As dores de hoje, pagas pesadamente no corpo e na alma, são resultado de um tempo em que homens e mulheres abandonaram suas próprias crias em nome de algo, que hoje não sabem mais o que é, nem mesmo se valeu alguma pena.